Fundos Mono Ação – conheça o trabalho dos sonhos, à custa dos cotistas

Quem tem um pouco de familiaridade com o dia a dia das operações no mercado financeiro local, sabe que não é nada fácil conseguir se manter lucrativo no longo prazo, seja na negociação de ações, criptoativos, moedas, títulos privados ou de qualquer outro valor mobiliário. No curto prazo, muitas vezes a sorte de principiante ajuda mas, no médio e longo prazos, a sorte sai de cena e o que prevalece de verdade é a experiência (muito suor) e o brilhantismo de um grupo muito seleto e dedicado que engloba as mentes mais iluminadas do país.

Como a concorrência entre os diferentes agentes de mercado é extremamente acirrada, no entanto, não basta ter experiência e um QI elevado. É necessário, muitas vezes, ir além e investir pesadamente em equipes multidisciplinares, diferentes sistemas para acessar informações de mercado em tempo real, controles sofisticados de risco e se fazer muita, mas muita pesquisa. E tudo isso, embora aumente as chances, não garante que os bons resultados de fato virão. Há dezenas de gestores com currículos invejáveis e equipes estelares que, muitas vezes, não conseguem atingir bons retornos, por consequência não ganham dinheiro e acabam saindo do mercado ao longo do tempo.

Existe um grupo extremamente privilegiado de gestores de fundos, contudo, que consegue ser muito bem remunerado com um esforço ínfimo. Esses afortunados estão no alto do Olimpo da eficiência: o esforço dispendido para a gestão de seus fundos é mínimo e a receita auferida com taxas de administração é suficiente para manter seus bolsos muito mais do que bem recheados. Aliás, os bolsos de seus filhos e netos também. Eles não precisam esquentar a cabeça com horas e horas de leituras, nem com contratação e retenção de equipe, muito menos com trabalho de campo visitando Bancos Centrais ou CFOs de empresas para tentar entender melhor suas operações.

Quem são, afinal, esses felizardos?

São os gestores dos fundos “Mono Ação”.

E existe isso?????

Sim, a categoria de fundos “Mono Ação” conta com dezenas de produtos. Essa classificação foi criada pela Anbima, órgão que atua como agente autorregulador da indústria de fundos no Brasil. Apesar do nome intuitivo, segue a descrição de sua estratégia:

“Fundos com estratégia de investimento em ações de apenas uma empresa”.

Você não entendeu errado – é bem simples mesmo: os gestores desses tipos de fundos possuem o trabalho de comprar ou vender as ações de uma única empresa. Todo dia. O ano todo. Faça chuva, faça sol, só vai precisar negociar uma ação específica. Os mais comuns são aqueles que só compram ações de Petrobras ou somente ações da Vale.

Gestor                                                                  Nº de Fundos

Bradesco Asset Management                                     9

Santander Brasil Asset Management                     9

BB Gestão de Recursos DTVM                                   6

Itaú Unibanco                                                                       6

Caixa Econômica Federal                                             4

Total                                                                                        34

 

De novo eles, os “Bancões”

Seguindo com nossas investigações, vimos o motivo de os grandes bancos concentrarem um número tão grande desses tipos de fundos: só eles têm coragem de cobrar taxas tão abusivas para implementar uma estratégia tão simples.

Ordenando nossa amostra pela quantidade de cotistas impactados, vemos que os 20 principais fundos, por esse quesito, são geridos exatamente pelos mesmos 5 bancos da tabela acima (com exceção de apenas um fundo, gerido pela Sicredi). Coincidência ou não, a instituição que cobra mais caro por esse tipo de fundo é o Santander (até 4,00% a.a.) que, inclusive, foi foco de notícias nada glamurosas alguns dias atrás, justamente por conta de fundos com taxas excessivamente altas (data base: 18/09/2019).

Fundos MonoAtivos

Emprego dos sonhos

Para gerir um fundo da categoria Mono Ação precisa-se, basicamente, de uma pessoa na equipe. Isso se excluirmos a possibilidade de alguém do departamento de TI construir um algoritmo muito simples que compre e venda automaticamente a ação alvo do fundo ao final de cada dia, dependendo de aplicações ou resgates que o fundo sofra.

Ao contrário de outras estratégias de fundos que podem demandar 8 ou mais horas ininterruptas de trabalho de uma equipe inteira, essa única pessoa que ficasse dedicada exclusivamente ao mandato de um fundo Mono Ação não gastaria mais do que 30 ou 40 minutos por dia para fazer todas as operações demandadas pelo produto. Já pensou? Receber 2,0% ou até mesmo 4,0% de taxa para trabalhar 40 minutos por dia?

Parece piada, né? Mas não é. Esse é todo o tempo que alguém gastaria para fazer gestão de um fundo Mono Ação: alguns parcos minutos por dia. Sem suor. Sem pesquisa. Sem gerenciamento de equipe. Sem stress. Uma ligação por dia e pronto. Emprego dos sonhos, não? Você já conheceu algum desses gestores? Provavelmente não e provavelmente nunca vá conhecer, pois com uma “hora trabalhada“ tão cara, vão querer mais é ficar bem quietos nos seus lugares para que ninguém os descubra!

Se para alguns o relato acima provoca divagações e suspiros de inveja, para os cotistas desses fundos deveria provocar ataques de fúria. Infelizmente, a grande maioria sofre com a falta de transparência de quem os aconselha a investir nesses produtos, cujas taxas não deveriam passar, em hipóteses alguma, de 0,40% ou 0,50% (e ainda seria caro). Para efeitos de comparação, é possível investir em várias corretoras com taxa de custódia igual a zero para se comprar ações da Petrobras ou da Vale e ter exatamente a mesma exposição a risco que esses fundos têm.

Se você, por acaso, possui recursos em algum fundo como esses, seria interessante considerar outras opções de investimentos. Seja comprando as ações diretamente com taxas muito baixas ou mesmo iguais a zero, seja investindo em fundos muito mais completos e com gestão ativa, que pelos mesmos 2,00% que muitos dos fundos acima cobram, contam com equipe robusta e experiente, sistemas de primeira, carteiras diversificadas e, mais importante, retornos que excedem em muito o CDI ou o Ibovespa no longo prazo.

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