Investidor busca mais fundo de ação

O ano começou quente para os fundos de ações. A captação, que já vinha crescente desde a corrida eleitoral em outubro, com um fluxo de R$ 9,6 bilhões, ensaia um bom ritmo para 2019. Em janeiro, R$ 2,4 bilhões ingressaram na categoria, 22% mais do que no mesmo mês do ano passado. Nos primeiros dias de fevereiro, até o dia 13, outros R$ 2,3 bilhões engordaram o patrimônio das carteiras de renda variável, em comparação aos R$ 2,1 bilhões de fevereiro de 2018 fechado. Os dados são da Anbima, que representa o mercado de capitais e de investimentos. Como resultado desse maior interesse do investidor por ações, alguns gestores se tornaram campeões de audiência.

É o caso da Alaska, que superou a marca de 100 mil cotistas no início do mês. O Alaska Institucional, que acolhe aplicações a partir de R$ 1 mil e está em quase uma dezena de plataformas, tem, sozinho, quase 60 mil investidores, de menos de uma centena seis meses atrás. O Itaú Dunamis multiplicou por quase mil vezes a quantidade de aplicadores, a 11,2 mil, após fechar o Phoenix, o carro-chefe da categoria ações, para novos aportes. O Kapitalo Tarkus, destinado ao público qualificado, saiu de menos de duas centenas para 5,9 mil cotistas.

Outros destaques foram o AZ Quest Top Long Biased, com adição de 308% de investidores, a 10,6 mil; o Moat (127%), para 5,8 mil (127%); o Navi Institucional (193%), com 4,2 mil; o Leblon Ações II (189%), a 2,3 mil; o Apex (252%), para 4,9 mil aplicadores, e o Santander Seleção (292%), com um total de 5,7 mil aplicadores.

Os dados foram compilados pelo economista Marcelo D’Agosto, especialista em administração de investimentos, na base da Morningstar. Ele considerou as carteiras que tiveram maior incremento de cotistas em cada gestora. “Acho que se deu bem quem rendeu muito, teve uma política de vendas mais agressiva e deixou [o fundo] disponível nas plataformas”, diz.

Com a Selic tendo completado em 2018 seu primeiro ano inteiro em um dígito, parece ter caído a ficha do investidor que o CDI sem risco só vai dar retorno perto de 6,5% ao ano. A disseminação das plataformas de investimentos, de corretoras e bancos digitais, além de tíquetes de entradas mais baixos, também têm ajudado a aumentar o número de investidores nessas carteiras. E, aparentemente, diz D’Agosto, é o olhar pelo retrovisor, para a rentabilidade passada, uma das iscas para esse movimento. Nos últimos 12 meses até o fim de janeiro, o retorno dos fundos em destaque pelo aumento de cotistas foi superior a 21%, ante 14,7% do Ibovespa.

Também na bolsa, na compra e venda direta de ações, o número de pessoas físicas no pregão aumentou sensivelmente. No ano passado, houve um crescimento de 31,3%, a 813,3 mil investidores, e só em janeiro uma adição de mais 45,1 mil, para um total de 858,5 mil pequenos acionistas.  O movimento do primeiro mês de 2019 já representa 23,3% da quantidade de CPFs que ingressou em todo 2018.

Com a reforma da Previdência como pano de fundo para engatar um período que promete ser virtuoso para o mercado de capitais, Walter Maciel, executivo-chefe da AZ Quest, vê esse direcionamento para a renda variável como o início de uma trajetória mais estrutural. “O investidor quer tomar risco porque gosta? Não, ele é obrigado porque a taxa de retorno sumiu”, diz, referindo-se aos tempos em que a taxa de juros de referência da economia estava em 14,25% ao ano e assegurava rentabilidade perto de 1% ao mês no CDI, sem soluços. “Agora, 6,5% ao ano [atual Selic] bruto virou a alternativa para quem não quiser tomar risco.”

Ele cita que o espírito do investidor para modalidades mais voláteis e com maior potencial de retorno, incluindo na lista fundos de crédito ou de arbitragem em renda variável, ficou adormecido após o vazamento da conversa do ex-presidente Michel Temer com o empresário Joesley Batista, em maio de 2017. Agora, com a percepção de que a economia tem capacidade ociosa suficiente para rodar com juros baixos sem pressionar a inflação, tal disposição foi renovada.

Maciel acha que a cena internacional, com temores de uma desaceleração global, vai dar uma trégua após o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) sinalizar uma postura menos agressiva nas suas intenções de ajuste monetário. “Devemos ter dois anos de inflação acomodada e juros baixos para fazer investimentos e tomar risco no Brasil.” Com a menor participação do governo no financiamento às empresas, o executivo vê as operações de mercado de capitais ganharem ritmo, com mais ativos para alimentar os fundos. Em seus diversos produtos na grade, a AZ Quest tem 115 mil pessoas físicas.

Com R$ 1,5 bilhão em duas estratégias de renda variável, a Moat Capital tem hoje 20% do seu passivo vindo de plataformas, 45% de escritórios de gestão de fortunas e outros 30% de fundações. Para se ter uma ideia do passo do crescimento, no episódio da greve dos caminhoneiros, em maio, os recursos sob gestão estavam na casa dos R$ 500 milhões, conta o sócio da gestora Adriano Leite. E mesmo nos momentos mais adversos de mercado, ele diz não ter experimentado uma fuga de recursos.

“O investidor está num processo de aprendizagem, acho que o juro baixo acelera isso”, diz Leite. “Hoje em dia o investidor na ponta está muito mais próximo do gestor do que quatro ou cinco anos atrás, as plataformas ajudaram. E também há mais exposição na mídia não tradicional e em redes sociais.” A sua percepção é que quem busca a renda variável é mais paciente do que o aplicador que escolhe um multimercado, uma gradação de risco que costuma aparecer logo depois da renda fixa. “A bolsa é um risco que ele pensou muito antes de entrar; é menos dinheiro [que entra], mas é mais aderente.”

No ano passado, o fundo de ações da casa fechou com valorização de 30,2%, mas teve quatro meses negativos: maio (-8,12%), junho (-5,25%), agosto (-6,55%) e dezembro (-2,03%). Com a chegada da pauta da Previdência ao Congresso, Leite adverte que a cota vai chacoalhar.

Com a maior procura por fundos relacionados à estratégia de bolsa, a Moat já tem um filhote programado, um “long biased”, que vai ter mais liberdade para calibrar as posições conforme o cenário, entre 30% e 50%. Já o fundo de ações tradicional procura sempre estar investido nos papéis em que enxerga as melhores assimetrias entre o preço atual e o valor que pode capturar no futuro.

Com parte expressiva dos fundos de ações listados em plataformas digitais com aplicação mínima abaixo de R$ 10 mil e também os bancos baixando os tíquetes de entrada, o acesso para as carteiras de ações ficou mais fácil de maneira geral, acrescenta Gustavo Pires, sócio da XP Investimentos responsável pela área de fundos. A instituição sozinha atraiu R$ 1 bilhão em janeiro para os fundos de ações na plataforma, 30% de tudo que foi captado no período.

Também na Órama, a busca por opções de maior risco aumentou, como multimercados, fundos imobiliários e de ações, segundo o executivo-chefe Habib Nascif.

Por Adriana Cotias – Jornal Valor Econômico 25/02/2019

Compartilhe

Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on telegram

Posts relacionados