Tesouro aumenta a venda de prefixados

O Tesouro Nacional aproveitou a queda recente dos juros no mercado futuro para reforçar a oferta de títulos prefixados. A percepção é de que há demanda de estrangeiros, que costumam comprar papéis mais longos, como Notas do Tesouro Nacional série F (NTNF). Nomura, Citi e Quantitas veem espaço para queda adicional das taxas ao longo dos vencimentos se o fluxo financeiro externo se confirmar para a renda fixa local.

Ontem, o Tesouro colocou 13,5 milhões de papéis prefixados representados pelas Letras do Tesouro Nacional (LTN), mais curtas, em mais um dia de forte queda dos juros futuros. A venda de LTN para janeiro de 2020 foi recorde: de 6,5 milhões.

O Tesouro já vendeu em maio, R$ 21,164 bilhões em papéis prefixados, mais da metade do total de abril, de R$36,7 bilhões.

O recuo das taxas de juros tem contribuído para reduzir o custo de emissão do Tesouro, o que deve ter efeito positivo para a dívida pública. Nesse cenário, o governo vem diminuindo a colocação de títulos pós fixados. Ontem, vendeu 197.250 Letras Financeiras do Tesouro (LFT), de uma oferta total de 500 mil papéis. É a menor colocação desde o fim de março.

Com mudança de governo, os analistas afirmam que o mercado de renda fixa é o que tem mais oportunidade de investimento, vendo espaço para uma queda maior das taxas de juros.

A leitura do mercado é que o presidente interino Michel Temer terá uma base política mais sólida no Congresso para aprovar as medidas de ajuste fiscal.

O mercado reagiu positivamente à nomeação da nova equipe econômica, o que contribuiu principalmente para a queda das taxas dos contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) mais longos.

O DI para janeiro de 2017 recuou de 13,60% para 13,56%, enquanto o DI de janeiro de 2021 caiu de 12,60% para 12,13%.

Uma das medidas de percepção de risco, a inclinação da curva a termo, dada pela diferença entre o DI para janeiro de 2021 e o DI para janeiro de 2017, fechou ontem negativa em 1,43 ponto, menor nível da história quanto mais negativa, menor a aversão a risco.

O foco se volta agora para o anúncio das primeiras medidas de ajuste fiscal. Um dos maiores desafios já no início será assumir um déficit fiscal ainda maior, mais perto de R$ 130 bilhões, do que os R$ 96,6 bilhões previstos.

Para Rogério Braga, sócio e gestor da Quantitas há espaço para uma queda maior das taxas de juros mais longas com a aprovação das primeiras medidas fiscais, como o corte de ministérios, que não depende da aprovação no Congresso. “Acho que a taxa de juro longa pode cair para 11,5% com a aprovação de algumas medidas fiscais no curto prazo”, diz Braga, que prevê uma queda ainda maior do juro longo para 11% com a implementação de reformas estruturais, como a da Previdência.

Já nos vencimentos mais curtos, embora a possível nomeação de Ilan para o BC tenha reforçado as aposta no corte da Selic em julho, Braga acredita que a autoridade deve iniciar o afrouxamento monetário só em agosto. “Dificilmente haverá uma troca de comando do BC em junho, pois depende da aprovação dos nomes pelo Senado. Então, assumindo que haverá uma mudança só em julho, é mais provável que um corte de juros comece só em agosto”, diz.

Já o diretor de mercados emergentes e estratégia do Citi em Londres, Luis Costa, vê oportunidade de ganho principalmente na parte mais curta da curva de juros, apostando na queda da Selic. “O ‘trade’ agora é de política monetária. De forma geral, estamos positivos em ativos brasileiros, principalmente na renda fixa, com a expectativa de queda da taxa básica, o que esperamos que ocorra ao longo dos próximos seis meses.”

Segundo Costa, o investidor estrangeiro está atento ao suporte político que o novo governo de Michel Temer terá no Congresso e na capacidade de aprovar as medidas de ajuste fiscal. “Os preços já se ajustaram e para aumentar as alocações em Brasil, os investidores precisam ver a confirmação do suporte político para aprovação de medidas estruturais, o que parece uma tarefa bem difícil.”

Já a Nomura Secutiries avalia que a troca de governo deve continuar reforçando o “bom humor” dos mercados de renda fixa do Brasil, vendo melhora não só nos fundamentos econômicos, mas também nos níveis de preços dos mercados em geral. “Isso depende de que todas as cartas políticas e econômicas sejam bem jogadas durante a lua de mel com o novo governo”, aponta em nota a clientes.

A Nomura recomenda posição comprada no DI para janeiro de 2019 e vendida no DI janeiro de 2021, apostando numa queda maior das taxas mais longas.

Já o BNP Paribas espera que a o Credit Default Swap (CDS) de cinco anos do Brasil uma medida do risco de calote da dívida soberana dos países deve cair. O banco prevê uma queda do CDS do Brasil, hoje em 320 pontos base para 300 pontos. Depois de manter a perspectiva negativa para o país, o BNP alterou a avaliação para Brasil,considerando ser “a hora de ficar positivo”.

Para o sóciofundador e vicepresidente da Capitânia, César Lauro, o mercado financeiro ainda não incorporou nos preços dos ativos a aprovação de medidas de reequilíbrio econômico a serem enviadas por Temer ao Congresso. Portanto, confirmando se as aprovações, há espaço para queda adicional dos juros reais.

Segundo Lauro, enquanto a moeda brasileira já pode estar próxima de um nível “justo” ou mesmo cara, algumas taxas dos papéis indexados à inflação (NTNB), mesmo abaixo de 6%, ainda estão em níveis elevados e tendem a cair caso sejam cumpridas as expectativas do mercado com a condução da política econômica do governo.

Ontem o dólar fechou em alta de 0,8% a R$ 3,4726. O BC voltou a atuar e vendeu o lote integral de 20 mil contratos de swap cambial reverso ofertados no leilão, operação equivalente a uma compra de US$ 1 bilhões no mercado futuro, o que contribuiu para dar suporte para a moeda americana.

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